O Vício da Comédia



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Stand Up Comedy

Eu consigo perceber o medo de um soldado aliado numa frágil lancha de desembarque a caminho da Normadia; a aproximação à praia onde as metralhadoras alemãs o esperam; o som das explosões cada vez mais alto. Não que eu alguma vez tenha estado numa zona de guerra (o mais parecido foi ter ido à Amadora), mas o medo que senti na minha primeira actuação como stand-up comedian, a primeira vez que entrei sozinho num palco para fazer rir duzentas pessoas, foi algo similar. No entanto, nessa noite de Gent na Bélgica, ao mesmo tempo que enfrentava o público e tentava pensar na forma mais fácil de fugir do palco sem despertar atenções, abriu-se-me um novo mundo de emoções. Parafraseando o famoso Jay Leno, a primeira vez que se faz stand-up comedy é como a primeira vez que se faz amor: não corre nada bem, provavelmente temos uma rapariga na cama a chorar e a chamar-nos "tarado", mas a gente até gostou e quer tentar outra vez.

Por estranho que pareça, existem muitas pessoas a querer fazer stand-up comedy e esta é uma arte em expansão no nosso país. Prova disso foi o sucesso dos Festivais de Stand-Up Comedy em Braga, o Levanta-te e Ri que passou na SIC à alguns anos (e no qual eu participei) e o sucesso de alguns cómicos stand-up como o Nilton. Mas o que leva homens adultos a vaguear pelos bastidores fumando e bebendo como se não houvesse amanhã só pela oportunidade de estar alguns minutos em frente a uma audiência? Stand-up comedy é difícil, muito difícil. O comediante Inglês Jasper Carrot conta uma estória que ocorreu aquando duma passagem sua por Belfast, na Irlanda do Norte, em finais da década de 70. Era um período conturbado com confrontos entre Católicos e Protestantes e atentados terroristas contra o exército Britânico que tentava manter a ordem. Carrott atravessava uma passadeira no aeroporto para ir buscar as suas bagagens quando um soldado Britânico de ar ameaçador o reconheceu. O soldado começou por elogiar Carrot dizendo que apreciava o seu trabalho e que gostava muito de stand-up comedy. "Inclusive," disse o soldado enquanto empunhava a sua metralhadora, "gostava de ter feito stand-up comedy. Só que não seria capaz de aguentar o stress."

Apesar das dificuldades, e apesar da maioria dos aspirantes a stand-up comedians não terem experiência no mundo do espectáculo, não faltam pessoas que sentem a necessidade de actuar. Há quem pense que é para impressionar os amigos. Infelizmente, na maioria das vezes os amigos acabam é a dizer coisas como: "Sabes, apesar de teres algum jeito, o [qualquer-tipo-que-alguma-vez-tenha-contado-uma-anedota-na-televisão] tem mais piada do que tu." Não, um stand-up comedian não tenta impressionar. A verdade é que os stand-up comedians são na maioria pessoas frágeis, até psicóticas que precisam do amor do público para sobreviver. Fazer rir duzentas pessoas é um sentimento fantástico, uma espécie de injecção de auto-estima que nos inflama a alma. Existe ainda a percepção de que um cómico stand-up actua para o prazer do público, mas não. Um cómico stand-up era capaz de pagar pela sensação que obtém ao actuar. Alguns comediantes--inexplicavelmente, o nome "Woody Allen" não pára de saltitar pela minha cabeça--chegam mesmo a utilizar o seu espectáculo para desabafar e falar dos seus problemas pessoais: uma forma mais barata de fazer psicanálise. E o pior é que não conseguimos parar; ficamos viciados. Eu faço stand-up comedy para alimentar as chamas que ardem no meu coração e jamais conseguirei deixar este vício que me alimenta e me consome piada a piada. E pelo menos as pessoas na audiência estão vestidas e não começam a chorar e a chamarem-me "tarado", até agora.


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